O árbitro de vídeo “extraoficial” é só mais uma face do Brasil justiceiro

Meira Ricci anula pênalti na Ilha do Retiro (Foto: Reprodução)

Por Pedro Galindo

No jogo que encerrou a 25ª rodada do Brasileiro de 2017, na noite da última segunda-feira, Sport e Vasco empataram em 1 a 1 na Ilha do Retiro. Mas o principal assunto relacionado à partida não foram os gols de Nenê e André, ou a expulsão de Diego Souza (já brilhantemente tratada aqui pelo jornalista Júlio Gomes), ainda aos 20 minutos da primeira etapa. O destaque ficou por conta do pênalti marcado e, cerca de quatro minutos depois, “desmarcado” pelo árbitro Sandro Meira Ricci, após orientação do auxiliar que estava do outro lado do campo.

A polêmica nasceu quando o lateral Mena tentou um cruzamento a partir do flanco esquerdo. A bola desviou no zagueiro Anderson Martins e o árbitro não hesitou: apontou para a marca da cal. Na transmissão da TV, uma câmera de trás do gol mostrava que o vascaíno não havia sequer esticado o braço. O esférico havia tocado no ombro do jogador, e isso ficou consideravelmente visível para quem acompanhava a partida de casa – ou pelo monitor no pé da grua que estava atrás da barra defendida por Magrão.

Foi para lá que os reservas do Vasco correram enquanto, na grande área cruzmaltina, os jogadores questionavam a decisão do árbitro. Enquanto os rubro-negros decidiam quem bateria a penalidade, entretanto, Meira Ricci parou para atender um chamado em seu ponto eletrônico. Era o assistente Marcelo Van Gasse. Ele havia acompanhado o lance de muito longe mas, estranhamente, comunicou sua certeza de que Anderson Martins não tinha tocado a bola com o braço. O alerta foi suficiente para convencer o juiz, que decidiu anular sua marcação e dar escanteio para o Sport.

Embora não seja fácil provar que a decisão de Meira Ricci tenha sido modificada com base em uma interferência externa ao campo de jogo, mais difícil ainda é explicar de onde essa mudança teria vindo senão das imagens geradas pelo SporTV. Afinal, dentro do gramado ou nas arquibancadas, provavelmente só Anderson Martins tinha certeza de que a bola não tinha tocado em seu braço, já que ele não chegou a esticá-lo, o que caracterizaria a infração. Em suma, ou tudo não passou de uma enorme e infeliz coincidência ou, de fato, o trio de arbitragem fez uso do recurso de vídeo para anular o pênalti que daria o empate ao Sport, ainda que essa ferramenta ainda não esteja autorizada e regulamentada no futebol nacional.

É presumível que um árbitro experiente como Sandro Meira Ricci, membro do quadro da Fifa, tivesse a perfeita noção de que as imagens da TV ainda não estão, ao menos oficialmente, à sua disposição para tirar dúvidas. Por isso, ao voltar atrás na marcação da penalidade, o juiz deixou de cometer um erro acidental para errar de maneira consciente, em nome de seu senso particular de justiça – nem que, para tanto, fosse necessário ignorar as regras e adotar práticas, digamos, heterodoxas.

Atitudes do gênero não são nenhuma novidade no futebol nacional. Mesmo proibido, o recurso de vídeo já gerou polêmica em pelo menos nove oportunidades desde 2012, quando um gol de mão do atacante Hernán Barcos foi validado e, posteriormente, anulado pelo árbitro Francisco Carlos Nascimento.  Só na atual temporada, foram três episódios. O primeiro foi em junho, quando Paulo Schleich Vollkopf marcou pênalti para o Avaí contra o Flamengo, na Ilha do Urubu, e dois minutos depois, voltou atrás. No segundo, pela Copa do Brasil, o Rubro-negro carioca foi novamente favorecido – Leandro Pedro Vuaden marcou pênalti sobre o atacante Bruno Henrique, do Santos, e após muita confusão, recuou. Na terceira controvérsia do ano, foi a vez do Vasco escapar de uma marcação injusta com base nesse uso sui generis das imagens da TV.

Confusão na Vila Belmiro após pênalti desmarcado em jogo das quartas de final da Copa do Brasil. (Foto: Reprodução)

O uso deliberado da interferência externa no futebol nacional seria mais espantoso, no entanto, se não estivesse inserido em um contexto maior. Afinal, talvez em função da desesperança e da falta de confiança nas leis e instituições, um número cada vez maior de brasileiros acredita que desconsiderar as regras para tentar fazer justiça com as próprias mãos é algo não só aceitável, mas necessário.

Esse país onde os árbitros de futebol recorrem de maneira ilegal às imagens da TV é o mesmo que detém o recorde mundial de linchamentos – média de um por dia –, segundo estudo publicado no livro “Linchamentos – A justiça popular no Brasil” (Contexto, 2015). É também o mesmo país onde membros do Poder Judiciário vazam delações e tomam decisões cada vez menos amparadas na legislação e mais fundamentadas em escrituras sagradas e nas convicções individuais de cada magistrado. É, em suma, o país onde excessos são cometidos em nome de noções individuais de justiça, mesmo que a aplicação desses valores ocasione, muitas vezes, situações de uma arbitrariedade ainda maior.

É exatamente isso que vem acontecendo desde que os árbitros têm decidido desprezar a proibição ao recurso de vídeo para assumir essa condição de justiceiro. Enquanto alguns times vêm sendo agraciados com a chance de ter seus lances polêmicos ratificados ou retificados pelas câmeras da TV – em 2017, por exemplo, apenas equipes cariocas tiveram esse benefício –, a já combalida credibilidade do futebol nacional fica ainda mais em xeque. Os demais clubes, por sua vez, ficam apenas esperando pelo dia em que também poderão contar com alguém para corrigir as injustiças cometidas contra si.

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