Editorial: Marcados pela bola

Na íntegra, o editorial da primeira edição da Revista Febre.

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A poucos dias de decidir a Liga dos Campeões pela quarta vez na sua carreira, Daniel Alves, tricampeão do torneio com o Barcelona, publicou um artigo sobre a sua trajetória no futebol. Ao site The Players’ Tribune, que é alimentado só com textos produzidos por profissionais do esporte, o lateral da Juventus contou sobre como repete, antes de cada partida, um ritual que o afasta de todo o êxtase que envolve o jogo. Ele se conecta diretamente com suas origens. “Mano, eu vim da PQP. E estou aqui agora. É irreal, mas estou aqui. Bora”. E parte para mais uma jornada no ganha pão.

A publicação repercutiu muito nas redes sociais do mundo inteiro – como tudo o mais que esse craque baiano posta. No Brasil, ela foi recebida de uma forma muito positiva pelo público. Nem poderia ser diferente. A narrativa de Daniel é rica em detalhes, em verdade. Sua história de vida, então, poderia estar nos dicionários, entre as definições da palavra “superação”. Cresceu na zona rural de Juazeiro e se tornou um ídolo mundial, titular da Seleção. É simplesmente o jogador em atividade com mais títulos conquistados, 34 (sim, trinta e quatro). Com esse farto material em mãos, o atleta atacou de escritor e se saiu muito bem. Mas com esse texto, ele terminou revelando mais do que os percalços que teve que enfrentar para chegar onde chegou, que não foram poucos.

Em primeiro lugar, porque ele atacou um dos pilares do velho estereótipo do boleiro: o de ser alguém incapaz de concatenar ideias, e muito menos de colocar em palavras o que pensa – daí a surpresa de muita gente que ficou abismada por, veja só, um jogador escrever tão bem. Mas incidentalmente, o lateral mostrou também que parte do público sente falta de conteúdo esportivo menos voltado ao entretenimento e mais empenhado em mostrar que nem só de megaeventos, contratos milionários e glamour vive o esporte. Em outras palavras: para essa parcela dos fãs do futebol, quanto mais cru, melhor. Quanto mais verdade, melhor.

É imbuída desse espírito que nasce, neste junho de 2017, a Revista Febre. Nesta primeira edição, “Futebol, escape”, ela ambiciona mostrar exatamente qual é a distância entre Dani Alves e os milhões de garotos que sonham (ou já deixaram de sonhar…), um dia, conseguir uma fração mínima do que o lateral conquistou.

Contando as histórias de Gabriel, Arian, Rithely, Pintinho, Marcelo Ramos e Maurício Pantera, esta publicação deseja colocar no papel de protagonista aqueles que se aventuram, ou já se aventuraram, em um mercado no qual mais de 80% dos profissionais recebem menos de R$ 1 mil, segundo levantamento publicado em 2016 pela Confederação Brasileira de Futebol. Isso sem contar com os que investem a juventude no desejo de jogar profissionalmente e não chegam lá, por lesão ou qualquer outro motivo.

Outro anseio da revista é dar espaço a atletas e ex-atletas para se manifestarem, de forma crítica, sobre questões maiores do que o esporte puro e simples. Nesse contexto, Alex de Souza escreve um artigo em que explica como ele, até os dez anos de idade, não tinha vaso sanitário em casa, mas ainda assim conseguiu construir uma carreira brilhante, com passagens Palmeiras, Cruzeiro e Fenerbahçe. O craque ressalta a importância da formação humana na carreira de um atleta, algo também lembrado por Edu Gaspar, coordenador técnico da CBF, que foi o convidado do primeiro Febrecast.

Em suma, esta edição da Febre almeja ser a primeira manifestação de uma nova maneira de apresentar o jornalismo esportivo: multimidiática e multiplataforma, sóbria e crítica. Acima de tudo, verdadeira. Sejam bem vindos a essa experiência.

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